é verão
e acendi a fogueira
onde repouso diante
ela, pálida a meu lado
cavei uma cova
geminada nas suas medidas
oitenta e seis
sessenta
oitenta e seis
ela, pálida mas aquecida
pela fogueira de verão
no espeto?
não, teu destino é ali
naquela cova
tem as tuas medidas
é a tua cara!
bebo-lhe mais um trago
desta bebida amarga
rotulada "ilusão"
segunda-feira, 23 de julho de 2012
sábado, 21 de julho de 2012
senhor nevoeiro
perdido
e por todos abandonado
calcorreia as serras
ao descer ao sopé de mais uma
vira-se para a contemplar
uma última vez
e vê
como uma mão que envolve
o alto em forma de concha
o senhor nevoeiro
descendo a serra
no seu encalço
até ao seu encontro
o errante
de hambres farto
tira-lhe o partido
e
cortando um naco
sacia sua fome
com um bife de nevoeiro
mais cru que a própria solidão
e por todos abandonado
calcorreia as serras
ao descer ao sopé de mais uma
vira-se para a contemplar
uma última vez
e vê
como uma mão que envolve
o alto em forma de concha
o senhor nevoeiro
descendo a serra
no seu encalço
até ao seu encontro
o errante
de hambres farto
tira-lhe o partido
e
cortando um naco
sacia sua fome
com um bife de nevoeiro
mais cru que a própria solidão
domingo, 6 de maio de 2012
deito-me
deito-me e levanto-me
faço-o todos os dias
mas naquele dia não
deixei-me ficar
não me levantei
fiquei a ouvir e a sentir
a vida á minha volta
ouvir e sentir
foram os meus verbos
primeiro foram os sons
depois senti...frio
ouvi e senti
o pulsar da vida
do quarto
da casa
apercebo-me que
oiço e sinto
o que está lá fora também
a casa
começo a ser a casa
agora faço isto
todos os dias
nunca mais me levantei
já perdi a conta
aos dias que aqui estou
a ouvir a sentir
a casa
a ser a casa
sinto que deambulo
pela casa...
como fantasma?
talvez
agora sou a casa
a casa que viu
meu corpo deitar
e não mais levantar
não sei o que sou
mas sei o que fui
faço-o todos os dias
mas naquele dia não
deixei-me ficar
não me levantei
fiquei a ouvir e a sentir
a vida á minha volta
ouvir e sentir
foram os meus verbos
primeiro foram os sons
depois senti...frio
ouvi e senti
o pulsar da vida
do quarto
da casa
apercebo-me que
oiço e sinto
o que está lá fora também
a casa
começo a ser a casa
agora faço isto
todos os dias
nunca mais me levantei
já perdi a conta
aos dias que aqui estou
a ouvir a sentir
a casa
a ser a casa
sinto que deambulo
pela casa...
como fantasma?
talvez
agora sou a casa
a casa que viu
meu corpo deitar
e não mais levantar
não sei o que sou
mas sei o que fui
lá do alto vê-se melhor
no alto da alta escada
vê-se melhor
bem lá no alto
onde na verdade
podemos tocar nas nuvens
tomar-lhes o gosto
saboreá-las até
serão mesmo de algodão doce?
podemos lá viver?
sem correr o risco
de ficar-mos demasiado doces
a ponto de a pele estalar
como o melão mais doce
podemos ir?
se a doçura não fizer doer a barriga...
vê-se melhor
bem lá no alto
onde na verdade
podemos tocar nas nuvens
tomar-lhes o gosto
saboreá-las até
serão mesmo de algodão doce?
podemos lá viver?
sem correr o risco
de ficar-mos demasiado doces
a ponto de a pele estalar
como o melão mais doce
podemos ir?
se a doçura não fizer doer a barriga...
terça-feira, 17 de abril de 2012
o poema
posso começar?
chama-se o poema
o poema
e é sobre
um poema
que foi pensado
há muito
muito tempo atrás
antes até
do próprio tempo
antes até de este
ter sido pensado
é um poema antigo
mais antigo
do que o próprio tempo
e o tempo
é bem antigo
mais antigo do que
as coisas todas
todas as coisas do mundo
sim este poema
fala do tempo
porque o tempo
pode ser um poema
o poema
mais antigo do que
todas as coisas do mundo
chama-se o poema
o poema
e é sobre
um poema
que foi pensado
há muito
muito tempo atrás
antes até
do próprio tempo
antes até de este
ter sido pensado
é um poema antigo
mais antigo
do que o próprio tempo
e o tempo
é bem antigo
mais antigo do que
as coisas todas
todas as coisas do mundo
sim este poema
fala do tempo
porque o tempo
pode ser um poema
o poema
mais antigo do que
todas as coisas do mundo
quinta-feira, 5 de abril de 2012
bife
divino prato
bife suculento
regado de molho
bem cremoso
acompanhado de arroz
e batatas fumegantes
não comi
mas vi comer
quando passava
roto e com frio
e parei
o meu carro de compras enferrujado
e olhei
pela janela do restaurante
"que delícia!"
repetia o meu estômago
sem parar
ao ver o bife
ter aquela relação
íntima com o garfo
e depois o garfo
ter aquela relação
íntima com o homem
e a fome
daquele homem
a ser saciada
com aquela orgia alimentar
cofio a barba
"tenho de ir
revirar mais
um caixote..."
bife suculento
regado de molho
bem cremoso
acompanhado de arroz
e batatas fumegantes
não comi
mas vi comer
quando passava
roto e com frio
e parei
o meu carro de compras enferrujado
e olhei
pela janela do restaurante
"que delícia!"
repetia o meu estômago
sem parar
ao ver o bife
ter aquela relação
íntima com o garfo
e depois o garfo
ter aquela relação
íntima com o homem
e a fome
daquele homem
a ser saciada
com aquela orgia alimentar
cofio a barba
"tenho de ir
revirar mais
um caixote..."
quarta-feira, 4 de abril de 2012
potencial anarca
oiço
"olá colega"
olho e sorrio levemente
para o tipo
da secretária ao lado
por dentro
das minhas amarras
faço-lhe cara feia
"apetece-me cuspir-te
na cara
bem na cara"
mostrar as minhas
partes traseiras
em vez de sorrisos
ao chefe
que me observa
de olhar controlador
através do vidro
entro-lhe no escritório
arranco-lhe a espinha dorsal
acerto-lhe com ela na cara
:limito-me a imaginá-lo.
a lei
a ordem
as regras
de calças em baixo
tenho um olhar traseiro
sobre elas
sou um potencial anarquista
comprimido ao meu fatinho
o meu fatinho
é mais uma camisa de forças
na realidade
aqui continuo
sentado à secretária
ou à espera na fila
subjugado por ela
a sociedade.
"olá colega"
olho e sorrio levemente
para o tipo
da secretária ao lado
por dentro
das minhas amarras
faço-lhe cara feia
"apetece-me cuspir-te
na cara
bem na cara"
mostrar as minhas
partes traseiras
em vez de sorrisos
ao chefe
que me observa
de olhar controlador
através do vidro
entro-lhe no escritório
arranco-lhe a espinha dorsal
acerto-lhe com ela na cara
:limito-me a imaginá-lo.
a lei
a ordem
as regras
de calças em baixo
tenho um olhar traseiro
sobre elas
sou um potencial anarquista
comprimido ao meu fatinho
o meu fatinho
é mais uma camisa de forças
na realidade
aqui continuo
sentado à secretária
ou à espera na fila
subjugado por ela
a sociedade.
segunda-feira, 5 de março de 2012
casulos
casulos de memórias
velhos, tão velhos
quanto o próprio tempo
esperam ser despertados
por estímulos presentes
esperam
até não o poderem mais
de tão gordos
estes casulos nostálgicos
e eclodem!
explosivamente rejubilantes!
pintando toda a mente
até aí vazia
escura
sombria
e sem cor
como a velha casa
que esconde, velha mobília
debaixo de lençóis
lençóis de esquecimento
velhos, tão velhos
quanto o próprio tempo
esperam ser despertados
por estímulos presentes
esperam
até não o poderem mais
de tão gordos
estes casulos nostálgicos
e eclodem!
explosivamente rejubilantes!
pintando toda a mente
até aí vazia
escura
sombria
e sem cor
como a velha casa
que esconde, velha mobília
debaixo de lençóis
lençóis de esquecimento
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
a rua é larga
encontrão daqui
pisam-me dali
sem dar conta sou levado
pela torrente de corpos
hipnotizados quiçá telecomandados
por seres que habitam
estes monstros
de ferro e betão
que me rodeiam
e que me encurralam o Ser
a rua é larga
mas torna-se estreita
quando tanta gente a frequenta
pisam-me dali
sem dar conta sou levado
pela torrente de corpos
hipnotizados quiçá telecomandados
por seres que habitam
estes monstros
de ferro e betão
que me rodeiam
e que me encurralam o Ser
a rua é larga
mas torna-se estreita
quando tanta gente a frequenta
la santa compaña
qualquer dia
vêm bater à porta
nem que sexa a morte
din que
batendo três veces
com a fouce
sendo o terceiro
com mais forza
é esse o sinal
com esta sequência
xa sabemos o que esperar
e baixando a cabeza
á fila de almas
que espera
pairando lá fóra
nos xuntamos
sem querer saber
o que dali esperar
vêm bater à porta
nem que sexa a morte
din que
batendo três veces
com a fouce
sendo o terceiro
com mais forza
é esse o sinal
com esta sequência
xa sabemos o que esperar
e baixando a cabeza
á fila de almas
que espera
pairando lá fóra
nos xuntamos
sem querer saber
o que dali esperar
não é a hora
uma velhota
bem velhota
mãos unidas, reza
ajoelhada, reza
reza para mais
não se aproximar
a morte
mas a morte
não se detém
e cada vez
mais perto
a velhota
reza, agora
reza, aos soluços
a morte
pára, não é
a hora da
velhota, a morte
a foice não afiou
bem velhota
mãos unidas, reza
ajoelhada, reza
reza para mais
não se aproximar
a morte
mas a morte
não se detém
e cada vez
mais perto
a velhota
reza, agora
reza, aos soluços
a morte
pára, não é
a hora da
velhota, a morte
a foice não afiou
embrião
baloiça na cadeira
sem saber que no ventre
o embrião da morte carrega
pútrido
e o silêncio
apenas cortado
pelo calmante
e bastante terapêutico
silvar do vento latente
sem saber que no ventre
o embrião da morte carrega
pútrido
e o silêncio
apenas cortado
pelo calmante
e bastante terapêutico
silvar do vento latente
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
CONHECIDO O VENCEDOR DO CONCURSO ARTE ESCRITA DO CICLO CULTURAL DA UTAD
Porquificação
ornamentados
por personalidades,
humanos porquificados
não deixam de haver
aqueles menos interessados
que jogam outras vidas,
ao contrário
do patriarca que consente
e apoia a sarrabulhada
pautada por uma banda
afinada ao compasso
da fuga da manada
que corre ao desencontro
do canibal fratricídio
mas amam-se
nesta última ceia
irmãos desta pocilga,
a sociedade.
"O poema “Porquificação” foi o texto vencedor do concurso de Arte Escrita do Ciclo Cultural da UTAD, que foi divulgado ontem pelas 11 horas no Complexo Pedagógico.
Bruno Rodrigues, aluno do 3º ano de Línguas e Relações Empresariais, foi o vencedor deste concurso, que teve assim a oportunidade de adquirir uma obra á sua escolha do Pintor amarantino Fernando Barros.
A inspiração para a elaboração do poema centrou-se “na sociedade”, referiu Bruno Rodrigues.
O pintor amarantino Fernando Barros afirmou que queria principalmente “sentir o pulsar da juventude e o que pensam relativamente a esta área especifica arte, a pintura” por isso é que decidiu atribuir um quadro da sua obra ao vencedor."
http://cicloculturalutad.blogspot.com/2011/12/concurso-arte-escrita-porquificacao.html
http://akademia.comunicamos.org/cultura/conhecido-o-vencedor-do-concurso-arte-escrita/
http://www.utad.pt/pt/utadtv/jo/7dez2011.html
.
ornamentados
por personalidades,
humanos porquificados
não deixam de haver
aqueles menos interessados
que jogam outras vidas,
ao contrário
do patriarca que consente
e apoia a sarrabulhada
pautada por uma banda
afinada ao compasso
da fuga da manada
que corre ao desencontro
do canibal fratricídio
mas amam-se
nesta última ceia
irmãos desta pocilga,
a sociedade.
"O poema “Porquificação” foi o texto vencedor do concurso de Arte Escrita do Ciclo Cultural da UTAD, que foi divulgado ontem pelas 11 horas no Complexo Pedagógico.
Bruno Rodrigues, aluno do 3º ano de Línguas e Relações Empresariais, foi o vencedor deste concurso, que teve assim a oportunidade de adquirir uma obra á sua escolha do Pintor amarantino Fernando Barros.
A inspiração para a elaboração do poema centrou-se “na sociedade”, referiu Bruno Rodrigues.
O pintor amarantino Fernando Barros afirmou que queria principalmente “sentir o pulsar da juventude e o que pensam relativamente a esta área especifica arte, a pintura” por isso é que decidiu atribuir um quadro da sua obra ao vencedor."
http://cicloculturalutad.blogspot.com/2011/12/concurso-arte-escrita-porquificacao.html
http://akademia.comunicamos.org/cultura/conhecido-o-vencedor-do-concurso-arte-escrita/
http://www.utad.pt/pt/utadtv/jo/7dez2011.html
.
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
o meu sangue
olho o tecto branco
um pequeno ponto vagueia
um mosquito
coço o braço
e penso na picada
que me deste ontem á noite
sacana és um sacana
tinha a janela
apenas um bocadinho aberta
mas mesmo assim conseguiste
gordo cheio de sangue
o meu sangue
sinto que partilhamos algo
tens uma parte de mim
o meu sangue
não
não te vou tentar matar
esborrachar contra a parede
com uma palmada ou chinelada
não porque
sujava a parede branca
e ela foi pintada há dias
mas também porque
seria um desperdício
todo esse sangue
que roubaste
sem o meu consentimento
espalhado numa mancha
na parede
seria um desperdício
o meu sangue
um pequeno ponto vagueia
um mosquito
coço o braço
e penso na picada
que me deste ontem á noite
sacana és um sacana
tinha a janela
apenas um bocadinho aberta
mas mesmo assim conseguiste
gordo cheio de sangue
o meu sangue
sinto que partilhamos algo
tens uma parte de mim
o meu sangue
não
não te vou tentar matar
esborrachar contra a parede
com uma palmada ou chinelada
não porque
sujava a parede branca
e ela foi pintada há dias
mas também porque
seria um desperdício
todo esse sangue
que roubaste
sem o meu consentimento
espalhado numa mancha
na parede
seria um desperdício
o meu sangue
saudades desconhecidas
cabelos longos
escuros ondulantes
lábios finos
pele branca
uma luz alva emana
é possível
sentir saudades
de alguém
que na verdade
não se conhece?
escuros ondulantes
lábios finos
pele branca
uma luz alva emana
é possível
sentir saudades
de alguém
que na verdade
não se conhece?
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
vai saber-me bem
o sol já se põe
sinto na cara
seus últimos raios,
fracos mas quentes,
despede-se á medida
que se esconde,
ao longe
na grande azinheira
passos cansados
de mais um dia
de labuta,
vou deixando
meu rasto a cada passo,
pelo caminho levantam-se
pequenas nuvens de poeira,
como se pisasse poças de pó
e estas se evaporassem no ar
a metros do monte
os cães correm a receber-me
de caudas alegres,
dão voltas e voltas
ás minhas pernas
numa dança
que quase me faz cair
enfio o braço pelo postigo
abro a porta
e pouso a sacola,
cheiro a comida:
minha mulher na cozinha?
apenas lembranças
atiro-me para a cama
de barriga vazia,
dormir vai saber-me bem
sinto na cara
seus últimos raios,
fracos mas quentes,
despede-se á medida
que se esconde,
ao longe
na grande azinheira
passos cansados
de mais um dia
de labuta,
vou deixando
meu rasto a cada passo,
pelo caminho levantam-se
pequenas nuvens de poeira,
como se pisasse poças de pó
e estas se evaporassem no ar
a metros do monte
os cães correm a receber-me
de caudas alegres,
dão voltas e voltas
ás minhas pernas
numa dança
que quase me faz cair
enfio o braço pelo postigo
abro a porta
e pouso a sacola,
cheiro a comida:
minha mulher na cozinha?
apenas lembranças
atiro-me para a cama
de barriga vazia,
dormir vai saber-me bem
domingo, 23 de outubro de 2011
senhora dos cabelos italianos II
finos e elegantes cabelos
italianos, ondulantes,
sopra-lhes o vento
e dançam feitos
chorões frescos, numa
tarde domingueira,
neste parque
em que passeio, e
me lembro
da senhora dos cabelos italianos
italianos, ondulantes,
sopra-lhes o vento
e dançam feitos
chorões frescos, numa
tarde domingueira,
neste parque
em que passeio, e
me lembro
da senhora dos cabelos italianos
senhora dos cabelos italianos I
nesta tarde domingueira
em que fumo
mais um cigarro,
na varanda de casa
lembro-me,
da senhora dos cabelos
italianos, revejo-os
aqui, no vento
fresco e reconfortante,
saboroso
de travo salgado
e cheiro a mar
em que fumo
mais um cigarro,
na varanda de casa
lembro-me,
da senhora dos cabelos
italianos, revejo-os
aqui, no vento
fresco e reconfortante,
saboroso
de travo salgado
e cheiro a mar
o céu perdeu a cor
o céu mudou de cor
nem azul
tão-pouco cinzento
as pessoas
como que afectadas
pelo inesperado acontecimento
deambulam moles pelas ruas
o céu perdeu a cor
será este
o presságio da dor
nem azul
tão-pouco cinzento
as pessoas
como que afectadas
pelo inesperado acontecimento
deambulam moles pelas ruas
o céu perdeu a cor
será este
o presságio da dor
sábado, 23 de julho de 2011
momentum
entornada no solo,
dormente,
são vitais
os únicos sinais
que se te distinguem,
és uma massa indefinida
e viva, respiras e pulsas
sim, não és pedra
mas estás fria
dormente,
são vitais
os únicos sinais
que se te distinguem,
és uma massa indefinida
e viva, respiras e pulsas
sim, não és pedra
mas estás fria
sábado, 11 de junho de 2011
a morte saiu à rua
a morte saiu à rua
paira sobre o chão
na penumbra
pairando pelas sombras
com o seu manto negro
se move
negro de desejos
medonhos e frios
rosna e geme sons
sons macabros e mórbidos
das suas mil bocas negras
delas a saliva negra
o veneno
é um rasto que deixa
ao passar
nas pedras da calçada
é um rasto que deixa
ao passar
as paredes gelam
os corações param
os gatos negros pulam
contentes...
procura-te a morte
o espectro negro
de tão maligno
podes fugir
também te podes esconder
mas onde a escuridão estiver
a morte estará
para a alma te absorver
paira sobre o chão
na penumbra
pairando pelas sombras
com o seu manto negro
se move
negro de desejos
medonhos e frios
rosna e geme sons
sons macabros e mórbidos
das suas mil bocas negras
delas a saliva negra
o veneno
é um rasto que deixa
ao passar
nas pedras da calçada
é um rasto que deixa
ao passar
as paredes gelam
os corações param
os gatos negros pulam
contentes...
procura-te a morte
o espectro negro
de tão maligno
podes fugir
também te podes esconder
mas onde a escuridão estiver
a morte estará
para a alma te absorver
non nobis
cavaleiros da Ordem
não seriam mais de vinte
na terra seca
ouvem-se os cascos
no vento fresco
os gritos do inimigo
não seriam mais de trinta
os ditos infiéis
galopes secos
gritos ferozes
ecoam pela planície
aproximam-se as duas frentes
chovem já flechas e lanças
do lado da Cruz
pontas afiadas como diamante
penetram a malha de aço
enterram-se nas carnes
corpos rendem-se ao chão
colide a cavalaria
e o som
como dois trovões
que explodem ao se tocarem
lâminas cortam
o ar pesado
capacetes desfeitos
crânios são abertos
gritos
a constatação da dor
corpos dilacerados
enfeitam o descampado
de flechas cravadas nos peitos
são como flores
são flores da morte
que dos peitos brotam
não seriam mais de vinte
na terra seca
ouvem-se os cascos
no vento fresco
os gritos do inimigo
não seriam mais de trinta
os ditos infiéis
galopes secos
gritos ferozes
ecoam pela planície
aproximam-se as duas frentes
chovem já flechas e lanças
do lado da Cruz
pontas afiadas como diamante
penetram a malha de aço
enterram-se nas carnes
corpos rendem-se ao chão
colide a cavalaria
e o som
como dois trovões
que explodem ao se tocarem
lâminas cortam
o ar pesado
capacetes desfeitos
crânios são abertos
gritos
a constatação da dor
corpos dilacerados
enfeitam o descampado
de flechas cravadas nos peitos
são como flores
são flores da morte
que dos peitos brotam
quinta-feira, 9 de junho de 2011
manhã
acordo,
esfrego os meus pequenos olhos
sentado na cama,
enquanto calço os chinelos,
vou à casa de banho e
olho-me no espelho,
desato a rir,
pareço um chinês,
olhos pequeninos,
bocejo e sinto a água
fresca na cara.
percorro o corredor
direito à cozinha,
na cozinha a minha mãe
prepara-me o pequeno-almoço,
reparo que toda ela
se vestiu de negro, e
apanhou o cabelo,
mãe não fazes isso
só quando alguém morre?
não respondeu, pensei,
o pai já não aparece em casa há um mês.
esfrego os meus pequenos olhos
sentado na cama,
enquanto calço os chinelos,
vou à casa de banho e
olho-me no espelho,
desato a rir,
pareço um chinês,
olhos pequeninos,
bocejo e sinto a água
fresca na cara.
percorro o corredor
direito à cozinha,
na cozinha a minha mãe
prepara-me o pequeno-almoço,
reparo que toda ela
se vestiu de negro, e
apanhou o cabelo,
mãe não fazes isso
só quando alguém morre?
não respondeu, pensei,
o pai já não aparece em casa há um mês.
à tarde no parque
um casal troca juras de amor
um puto atira pedras junto ao lago
Um homem passa
leva as mãos nos bolsos
muito curvado
em passo acelerado
anda como se corresse
corre como se andasse
curvado como se a força do sol o curvasse
olhos colados no chão
perdidos em pensamentos silenciosos
corre a andar
pergunto-lhe
porque andas a correr?
um puto atira pedras junto ao lago
Um homem passa
leva as mãos nos bolsos
muito curvado
em passo acelerado
anda como se corresse
corre como se andasse
curvado como se a força do sol o curvasse
olhos colados no chão
perdidos em pensamentos silenciosos
corre a andar
pergunto-lhe
porque andas a correr?
terça-feira, 8 de março de 2011
hormonas danças
bacamarte
esperando a encantadora
de serpentes
que o fita com o olhar
já se escorrendo
quere-o deseja-o
toca-se
entre as pernas
como coração pulsante
segrega desejo
geme
'fode-me'
louco a agarra
a encosta á parede
ergue-a e a presenteia
por várias vezes
numa dança ritmada
e sincronizada
ali ficam
até que menos hormónicos
e sem fôlego
se deixam cair
liquidamente no chão
esperando a encantadora
de serpentes
que o fita com o olhar
já se escorrendo
quere-o deseja-o
toca-se
entre as pernas
como coração pulsante
segrega desejo
geme
'fode-me'
louco a agarra
a encosta á parede
ergue-a e a presenteia
por várias vezes
numa dança ritmada
e sincronizada
ali ficam
até que menos hormónicos
e sem fôlego
se deixam cair
liquidamente no chão
vermelho desamor
pincelas na mente
um quadro pintado a sangue
de teu coração esventrado
a paleta
a cor é única vermelho desamor
olhas atrás
sim sei que
careces de tudo isso
do feito e não feito
dito e não dito
pincelas um pouco mais
realça ali
não fodas o quadro
olha atrás um pouco mais
realça aí
não fodas também o quadro
um quadro pintado a sangue
de teu coração esventrado
a paleta
a cor é única vermelho desamor
olhas atrás
sim sei que
careces de tudo isso
do feito e não feito
dito e não dito
pincelas um pouco mais
realça ali
não fodas o quadro
olha atrás um pouco mais
realça aí
não fodas também o quadro
domingo, 27 de fevereiro de 2011
monstrinhos
guardo monstrinhos
peludinhos, gordinhos e feinhos
dentro de caixinhas
no peito guardo monstrinhos
pequeninos monstrinhos
que fumam cigarrinhos
peludinhos, gordinhos e feinhos
dentro de caixinhas
no peito guardo monstrinhos
pequeninos monstrinhos
que fumam cigarrinhos
sensual inebriante
casal inebriado
pelo odor sensual
pelos dois emanado
embebido em embriaguez
desarrolhemos mais uma botella
em êxtase sexual
e o néctar conhece o solo
bebamos pois do chão
como gatos
nus e ronronantes
amam-se e consomem-se como animais
no chão agora também embriagado
pelos dois infectado
divinos seres sexuais
pelo odor sensual
pelos dois emanado
embebido em embriaguez
desarrolhemos mais uma botella
em êxtase sexual
e o néctar conhece o solo
bebamos pois do chão
como gatos
nus e ronronantes
amam-se e consomem-se como animais
no chão agora também embriagado
pelos dois infectado
divinos seres sexuais
cães uivantes
sete cães
ali
deitados contando estrelas
sete reles cães uivantes
ali
deitados de barrigas inchadas
olhando o manto nocturno
de
barrigas gordas de sonhos
olham babados e inchados
de
barrigas cheias de nada
ali
deitados contando estrelas
sete reles cães uivantes
ali
deitados de barrigas inchadas
olhando o manto nocturno
de
barrigas gordas de sonhos
olham babados e inchados
de
barrigas cheias de nada
domingo, 6 de fevereiro de 2011
corredor
corredor que corre
apenas corre
sente o vento na cara
nos lábios um travo a natureza
emanado pela bondosa floresta
isso o faz sentir bem
poderia ali viver
a correr
tendo-a a ela
como única companhia
ela que o faz sentir pleno
que lhe alimenta o ser
bastando a presença dela
em seu redor
apenas corre
sente o vento na cara
nos lábios um travo a natureza
emanado pela bondosa floresta
isso o faz sentir bem
poderia ali viver
a correr
tendo-a a ela
como única companhia
ela que o faz sentir pleno
que lhe alimenta o ser
bastando a presença dela
em seu redor
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
árvore
habitam no seu peito
medonhas criaturas que
lhe devoram as entranhas
são como máquinas
inquietas e estridentes
angustiado
crava as unhas no peito
abre-o com ardor
de lá uma pequena árvore sai
suas pequenas raízes
logo se apressam a agarrar
a terra macia
ele alimenta-a depois
ali sentado regando-a sempre
sempre que sente seus lábios secarem
tempo passa
depressa se torna uma árvore
uma árvore como já teve
frondosa e carregada de frutos
agora paciente resta-lhe esperar
esperar por Ela
que venha colher
os frutos renovados
medonhas criaturas que
lhe devoram as entranhas
são como máquinas
inquietas e estridentes
angustiado
crava as unhas no peito
abre-o com ardor
de lá uma pequena árvore sai
suas pequenas raízes
logo se apressam a agarrar
a terra macia
ele alimenta-a depois
ali sentado regando-a sempre
sempre que sente seus lábios secarem
tempo passa
depressa se torna uma árvore
uma árvore como já teve
frondosa e carregada de frutos
agora paciente resta-lhe esperar
esperar por Ela
que venha colher
os frutos renovados
domingo, 30 de janeiro de 2011
silenciosamente
jaz teu corpo na cama
silencioso porém vivo
levantas-te preguiçoso
caminhas a custo
custo tal que a sentes
iminente a cada passo moribundo
expulsas então teus fluidos bocejando
regressas
e deixas cair morto
teu corpo sobre a cama
silencioso porém vivo
levantas-te preguiçoso
caminhas a custo
custo tal que a sentes
iminente a cada passo moribundo
expulsas então teus fluidos bocejando
regressas
e deixas cair morto
teu corpo sobre a cama
sábado, 8 de janeiro de 2011
tenho fome
queixo apoiado nos braços cruzados
debruçado sobre a mesa de jantar
tenho fome...
já revistei o frigorífico:
leite azedo e queijo bolorento
tenho fome...
como mais uma bolacha
das que encontrei debaixo do sofá
continuo com fome...
o joão mia
e sobe para a mesa
tem fome...
toma joão uma bolacha
come-a tu diz ele
é esquisito o cabrão
mesmo com fome...
debruçado sobre a mesa de jantar
tenho fome...
já revistei o frigorífico:
leite azedo e queijo bolorento
tenho fome...
como mais uma bolacha
das que encontrei debaixo do sofá
continuo com fome...
o joão mia
e sobe para a mesa
tem fome...
toma joão uma bolacha
come-a tu diz ele
é esquisito o cabrão
mesmo com fome...
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
a espera
porque paraste? como a árvore que pára ao deixar de sentir o sopro. esperas alguém? esperas o sopro...
domingo, 21 de novembro de 2010
sente
escrita sentida, mas sem sentido, para os sentidos
escrita para os sentidos, mas sentida, sem sentido
escrita sem sentido, mas sentida, para os sentidos
escrita para os sentidos, mas sentida, sem sentido
escrita sem sentido, mas sentida, para os sentidos
embriagado
embriagado, pelo momento, frente á lareira e no chão, como cão, suado do calor da chama, afastar-me? poderia...mas sinto o corpo petrificado.
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