segunda-feira, 29 de abril de 2013

estatísticas

qualquer dia
entro para as estatísticas
e nunca mais ninguém me apanha.
suicídio por negligência
do meu pensa.minto

quarta-feira, 10 de abril de 2013

casa em mim

guardo em mim
as vozes
todas as vozes do mundo
mas apenas duas se destacam
verbalizam
na minha mente
cuspindo
estes e outros temas
dando cor
ao interior
desta casa em mim
condenadas a viver
e conviver, presas
no meu ser
o meu seu
subterfúgio

segunda-feira, 25 de março de 2013

priceless hungry

I'll crave my claws
in your chest
open it
removing your heart carefully
I'll eat it
till my hungry for you
is satiated

at the end
with a big desire
your head I'll rip off
and display it
around my neck
like a priceless prize

sábado, 23 de março de 2013

cursed prints

my soul is rotten
inside out
is rotten
walking thru
the flowers go down
inside you I walk
leaving this cursed prints

sexta-feira, 22 de março de 2013

Reportagem do Lançamento do Livro "a árvore"

Reportagem do lançamento do livro de poesia "a árvore", no passado dia 15 de Março, na livraria Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e loisas do Douro, em Vila Real.

Vídeo do Jornal Universitário da UTAD, minuto 17:17

Prefácio
"Da sua vivência umbilical com o campo, presumo, nasce a paixão pelos temas relacionados com este, como a água, as árvores, a própria terra. A memória do autor explora ainda outros elementos da infância, como um veículo entre si e a sua poesia. Mas encontraremos aqui, também, temas de uma juventude atenta, como a problemática da droga, por exemplo. De todos, porém, realce-se o olhar tantas vezes inclinado sobre a condição humana. A humanidade dos gestos, dos sentimentos, da fragilidade dos seres, é uma constante nesta obra, tornado o autor tão atempadamente poeta como humanista."

Carlos Campaniço
Escritor

domingo, 6 de janeiro de 2013

plasticina

tenho saudades
do tempo
em que comia plasticina
e só o escuro me inquietava
esse fumo
exageradamente espesso
que mal me deixava respirar

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

cá no alto tudo normal

no alto das árvores
cá no alto
por entre folhas e ramos
os pássaros
o vento
o sol
tudo continua,
normal

lá em baixo
na terra húmida
a guerra
nevoeiro de lâminas
os decepados
os decapitados
por entre o talho
uma criança chora
um menino soldado
ferido de lágrimas
lavado em sangue
tudo continua,
normal

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

poço

és o poço que criaste
onde simplesmente nadas
nadas para não te afogares
nadas sem ter para onde ir
nadas para te manteres à tona
na esperança de que um dia
o poço seque

sábado, 24 de novembro de 2012

chorão

há quem diga que és triste
és mal amado
mal compreendido
julgam-te murcho
sem vida
acredito que és murcho
pelo peso dos bons momentos
que a tua sombra proporciona

não dás flor
não dás fruta
não faz mal
de ti
colhem-se aquelas memórias
de boas tardes passadas
a brincar
ou a arrulhar
com aquela menina

à tua sombra
imaginaram-se universos
criaram-se personagens
inventaram-se aviões
que te sobrevoaram
e depois partiram
para outros mundos
sem sair
da tua sombra primeva

começas a secar
formigas e outros invadiram-te
consomem-te do interior
se um dia secares por completo
até nada em ti estar verde
vou olhar-te com olhos de criança
e dizer
"é uma pena"
de mãos nos bolsos
irei embora
cheio do que de ti colhi

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

droga

não soubesse eu que estavas sobre o efeito de drogas, diria que a génese da tua existência a vês entediante, e buscas nesta droga algum fulgor, algum destédio, alguma improvisação, que droga esta? que te faz querer assim alguém, dizes que é a mais pura das drogas, porém não será a mais lícita, a mais legal, pois A desejas tão calorosamente, que puxas fogo a tudo o que te rodeia, elevando o Todo a Nada.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

cócegas

faço-me cócegas para rir e não chorar
peço-te cócegas para nos rirmos e não chorarmos

tens dedos firmes e decididos mas frágeis
na hora de me cocegares a barriga
enches-me a barriga de cócegas
apanho uma barrigada de cócegas
não aguento e urino-me
gozas mas também tu te urinas
unimo-nos nesta urina gargalhante
(urimo-nos) afogados no riso beligerante e tresloucado

sábado, 13 de outubro de 2012

tóxico e independentemente disso

sim és tu
meu cão da morte
devoras-me os amigos
afasta-os
leva-os contigo
pois eu já nem de mim
sou amigo
tornei-me veneno
tóxico e independentemente disso
ainda há quem
goste de mim assim,
não é meu amor?

a flor mais bela

dizem-te que és a flor mais bela
tens pesadelos com isso
e nos dias seguintes gozas
gozas com as pessoas que te chamam a flor mais bela
achas cliché, sentes que te tratam como tal
sentes-te um cliché
para tais pessoas cliché é bom
para ti torna-se pesadelo

mas,

quando estas sozinha no escuro do quarto
a chorar enquanto os teus pais se odeiam
lá fora
e tu, cá dentro
enrolada nos braços do medo
teu único amigo

sentes
não queres
mas sentes
a falta daqueles que te chamam
a flor mais bela

domingo, 7 de outubro de 2012

feronímia

sentado á secretária
vestindo um robe
apenas um robe
de órgão pendente
escrevo
sonetos desnudos
de todo e qualquer sentido
púb-l-ico
sonetos despornográficos
que falam de sorores
sedentas do amor
mas que guardam seus pudores
é a feronímia do ser
que só pensa em latejar
é apelativo ao pelativo
do fruto
a banana

domingo, 23 de setembro de 2012

casa em ti

chegaste ao ponto em que já não sabes o que é sair de casa

estás tão presa a ti, agarraste-te tanto a ti

já não sabes de que cor é a luz

já não sabes sequer se a luz tem cor

tudo o que vês é escuro, apenas os teus olhos

cinzentos esbatidos se reflectem no espelho da sala do teu consciente

na cave do teu subconsciente nunca entraste, tens medo

no sotão visitas as tuas recordações, e procuras sentimentos que perdeste

eles estão lá mas não os encontras

queres chorar, mas já não sabes como se faz

jardim

ao jardim vêm
os que procuram sentimentos
perdidos em visitas passadas

aqui ficam na noite
uivando cânticos
de olhos cintilantes

para ti são palavras soltas
musicadas, banais
são como farpas
nas mãos que levas ao peito

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

moedas para o barqueiro

quem á margem chega
já o vê na espera
o barqueiro guardador de almas
ao coberto de seu manto
tecido com as mais frias
e negras noites
não permite vislumbrar
qualquer feição
apenas se lhe conhecem as mãos
antigas e possantes
que seguram o velho remo
maior que a própria barca
de proa iluminada pela candeia
sejam bem finados vindos
contudo que tragam a moeda
da travessia moribunda
pobres daqueles pobres
que sem moeda
perambulam condenados
cem vazios anos
as apinhadas margens
e os gritos gemidos
dos defuntos doridos

são almas
almas para o barqueiro

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

cabeça de gaivota

sento-me, e aprecio no ar um corpo que voa, ondulante
apenas um corpo, porque, no lugar da cabeça uma gaivota
sim, daqui de onde vejo a cabeça tem a forma de gaivota
de asas bem abertas, patas fundidas com o pescoço do corpo
não grasna, muito menos fala, apenas se afasta rapidamente
apenas mais um de mente livre, cortando o vento em busca de algo

segunda-feira, 23 de julho de 2012

cova quente

é verão
e acendi a fogueira
onde repouso diante
ela, pálida a meu lado

cavei uma cova
geminada nas suas medidas
oitenta e seis
sessenta
oitenta e seis

ela, pálida mas aquecida
pela fogueira de verão

no espeto?
não, teu destino é ali
naquela cova
tem as tuas medidas
é a tua cara!

bebo-lhe mais um trago
desta bebida amarga
rotulada "ilusão"

sábado, 21 de julho de 2012

senhor nevoeiro

perdido
e por todos abandonado
calcorreia as serras
ao descer ao sopé de mais uma
vira-se para a contemplar
uma última vez
e vê
como uma mão que envolve
o alto em forma de concha

o senhor nevoeiro

descendo a serra
no seu encalço
até ao seu encontro

o errante
de hambres farto
tira-lhe o partido
e
cortando um naco
sacia sua fome
com um bife de nevoeiro
mais cru que a própria solidão

domingo, 6 de maio de 2012

deito-me

deito-me e levanto-me
faço-o todos os dias
mas naquele dia não
deixei-me ficar
não me levantei
fiquei a ouvir e a sentir
a vida á minha volta
ouvir e sentir
foram os meus verbos
primeiro foram os sons
depois senti...frio
ouvi e senti
o pulsar da vida
do quarto
da casa
apercebo-me que
oiço e sinto
o que está lá fora também
a casa
começo a ser a casa
agora faço isto
todos os dias
nunca mais me levantei
já perdi a conta
aos dias que aqui estou
a ouvir a sentir
a casa
a ser a casa
sinto que deambulo
pela casa...
como fantasma?
talvez
agora sou a casa
a casa que viu
meu corpo deitar
e não mais levantar
não sei o que sou
mas sei o que fui

lá do alto vê-se melhor

no alto da alta escada
vê-se melhor

bem lá no alto
onde na verdade
podemos tocar nas nuvens
tomar-lhes o gosto
saboreá-las até
serão mesmo de algodão doce?
podemos lá viver?
sem correr o risco
de ficar-mos demasiado doces
a ponto de a pele estalar
como o melão mais doce

podemos ir?
se a doçura não fizer doer a barriga...

terça-feira, 17 de abril de 2012

o poema

posso começar?
chama-se o poema
o poema
e é sobre
um poema
que foi pensado
há muito
muito tempo atrás
antes até
do próprio tempo
antes até de este
ter sido pensado
é um poema antigo
mais antigo
do que o próprio tempo
e o tempo
é bem antigo
mais antigo do que
as coisas todas
todas as coisas do mundo
sim este poema
fala do tempo
porque o tempo
pode ser um poema
o poema
mais antigo do que
todas as coisas do mundo

quinta-feira, 5 de abril de 2012

bife

divino prato
bife suculento
regado de molho
bem cremoso
acompanhado de arroz
e batatas fumegantes

não comi
mas vi comer

quando passava
roto e com frio
e parei
o meu carro de compras enferrujado
e olhei
pela janela do restaurante
"que delícia!"
repetia o meu estômago
sem parar
ao ver o bife
ter aquela relação
íntima com o garfo
e depois o garfo
ter aquela relação
íntima com o homem
e a fome
daquele homem
a ser saciada
com aquela orgia alimentar

cofio a barba
"tenho de ir
revirar mais
um caixote..."

quarta-feira, 4 de abril de 2012

potencial anarca

oiço
"olá colega"
olho e sorrio levemente
para o tipo
da secretária ao lado
por dentro
das minhas amarras
faço-lhe cara feia
"apetece-me cuspir-te
na cara
bem na cara"

mostrar as minhas
partes traseiras
em vez de sorrisos
ao chefe
que me observa
de olhar controlador
através do vidro
entro-lhe no escritório
arranco-lhe a espinha dorsal
acerto-lhe com ela na cara

:limito-me a imaginá-lo.

a lei
a ordem
as regras

de calças em baixo
tenho um olhar traseiro
sobre elas

sou um potencial anarquista
comprimido ao meu fatinho

o meu fatinho
é mais uma camisa de forças
na realidade

aqui continuo
sentado à secretária
ou à espera na fila
subjugado por ela
a sociedade.

segunda-feira, 5 de março de 2012

casulos

casulos de memórias
velhos, tão velhos
quanto o próprio tempo
esperam ser despertados
por estímulos presentes
esperam
até não o poderem mais
de tão gordos
estes casulos nostálgicos

e eclodem!
explosivamente rejubilantes!

pintando toda a mente
até aí vazia
escura
sombria
e sem cor

como a velha casa
que esconde, velha mobília
debaixo de lençóis
lençóis de esquecimento

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

a rua é larga

encontrão daqui
pisam-me dali
sem dar conta sou levado
pela torrente de corpos
hipnotizados quiçá telecomandados
por seres que habitam
estes monstros
de ferro e betão
que me rodeiam
e que me encurralam o Ser

a rua é larga
mas torna-se estreita
quando tanta gente a frequenta

la santa compaña

qualquer dia
vêm bater à porta
nem que sexa a morte

din que
batendo três veces
com a fouce
sendo o terceiro
com mais forza
é esse o sinal

com esta sequência
xa sabemos o que esperar
e baixando a cabeza
á fila de almas
que espera
pairando lá fóra
nos xuntamos
sem querer saber
o que dali esperar

não é a hora

uma velhota
bem velhota
mãos unidas, reza
ajoelhada, reza

reza para mais
não se aproximar
a morte

mas a morte
não se detém
e cada vez
mais perto

a velhota
reza, agora
reza, aos soluços

a morte
pára, não é
a hora da
velhota, a morte
a foice não afiou

embrião

baloiça na cadeira
sem saber que no ventre
o embrião da morte carrega
pútrido

e o silêncio

apenas cortado
pelo calmante
e bastante terapêutico
silvar do vento latente

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

CONHECIDO O VENCEDOR DO CONCURSO ARTE ESCRITA DO CICLO CULTURAL DA UTAD

Porquificação

ornamentados
por personalidades,
humanos porquificados

não deixam de haver
aqueles menos interessados
que jogam outras vidas,
ao contrário
do patriarca que consente
e apoia a sarrabulhada
pautada por uma banda
afinada ao compasso
da fuga da manada
que corre ao desencontro
do canibal fratricídio

mas amam-se
nesta última ceia
irmãos desta pocilga,
a sociedade.


"O poema “Porquificação” foi o texto vencedor do concurso de Arte Escrita do Ciclo Cultural da UTAD, que foi divulgado ontem pelas 11 horas no Complexo Pedagógico.

Bruno Rodrigues, aluno do 3º ano de Línguas e Relações Empresariais, foi o vencedor deste concurso, que teve assim a oportunidade de adquirir uma obra á sua escolha do Pintor amarantino Fernando Barros.

A inspiração para a elaboração do poema centrou-se “na sociedade”, referiu Bruno Rodrigues.

O pintor amarantino Fernando Barros afirmou que queria principalmente “sentir o pulsar da juventude e o que pensam relativamente a esta área especifica arte, a pintura” por isso é que decidiu atribuir um quadro da sua obra ao vencedor."


http://cicloculturalutad.blogspot.com/2011/12/concurso-arte-escrita-porquificacao.html

http://akademia.comunicamos.org/cultura/conhecido-o-vencedor-do-concurso-arte-escrita/

http://www.utad.pt/pt/utadtv/jo/7dez2011.html

.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

o meu sangue

olho o tecto branco
um pequeno ponto vagueia
um mosquito
coço o braço
e penso na picada
que me deste ontem á noite
sacana és um sacana
tinha a janela
apenas um bocadinho aberta
mas mesmo assim conseguiste

gordo cheio de sangue

o meu sangue

sinto que partilhamos algo
tens uma parte de mim

o meu sangue

não
não te vou tentar matar
esborrachar contra a parede
com uma palmada ou chinelada
não porque
sujava a parede branca
e ela foi pintada há dias
mas também porque
seria um desperdício
todo esse sangue
que roubaste
sem o meu consentimento
espalhado numa mancha
na parede
seria um desperdício

o meu sangue

saudades desconhecidas

cabelos longos
escuros ondulantes
lábios finos
pele branca
uma luz alva emana

é possível
sentir saudades
de alguém
que na verdade
não se conhece?

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

vai saber-me bem

o sol já se põe
sinto na cara
seus últimos raios,
fracos mas quentes,
despede-se á medida
que se esconde,
ao longe
na grande azinheira

passos cansados
de mais um dia
de labuta,
vou deixando
meu rasto a cada passo,
pelo caminho levantam-se
pequenas nuvens de poeira,
como se pisasse poças de pó
e estas se evaporassem no ar

a metros do monte
os cães correm a receber-me
de caudas alegres,
dão voltas e voltas
ás minhas pernas
numa dança
que quase me faz cair

enfio o braço pelo postigo
abro a porta
e pouso a sacola,
cheiro a comida:
minha mulher na cozinha?
apenas lembranças

atiro-me para a cama
de barriga vazia,
dormir vai saber-me bem

domingo, 23 de outubro de 2011

senhora dos cabelos italianos II

finos e elegantes cabelos
italianos, ondulantes,
sopra-lhes o vento
e dançam feitos
chorões frescos, numa
tarde domingueira,
neste parque
em que passeio, e
me lembro
da senhora dos cabelos italianos

senhora dos cabelos italianos I

nesta tarde domingueira
em que fumo
mais um cigarro,
na varanda de casa
lembro-me,
da senhora dos cabelos
italianos, revejo-os
aqui, no vento
fresco e reconfortante,
saboroso
de travo salgado
e cheiro a mar

o céu perdeu a cor

o céu mudou de cor
nem azul
tão-pouco cinzento

as pessoas
como que afectadas
pelo inesperado acontecimento
deambulam moles pelas ruas

o céu perdeu a cor
será este
o presságio da dor

sábado, 23 de julho de 2011

momentum

entornada no solo,
dormente,
são vitais
os únicos sinais
que se te distinguem,
és uma massa indefinida
e viva, respiras e pulsas
sim, não és pedra
mas estás fria

sábado, 11 de junho de 2011

a morte saiu à rua

a morte saiu à rua
paira sobre o chão
na penumbra
pairando pelas sombras
com o seu manto negro
se move
negro de desejos
medonhos e frios
rosna e geme sons
sons macabros e mórbidos

das suas mil bocas negras
delas a saliva negra
o veneno
é um rasto que deixa
ao passar
nas pedras da calçada
é um rasto que deixa
ao passar

as paredes gelam
os corações param
os gatos negros pulam
contentes...
procura-te a morte
o espectro negro
de tão maligno
podes fugir
também te podes esconder
mas onde a escuridão estiver
a morte estará
para a alma te absorver

non nobis

cavaleiros da Ordem
não seriam mais de vinte
na terra seca
ouvem-se os cascos

no vento fresco
os gritos do inimigo
não seriam mais de trinta
os ditos infiéis

galopes secos
gritos ferozes
ecoam pela planície
aproximam-se as duas frentes
chovem já flechas e lanças
do lado da Cruz

pontas afiadas como diamante
penetram a malha de aço
enterram-se nas carnes
corpos rendem-se ao chão

colide a cavalaria
e o som
como dois trovões
que explodem ao se tocarem

lâminas cortam
o ar pesado
capacetes desfeitos
crânios são abertos
gritos
a constatação da dor

corpos dilacerados
enfeitam o descampado
de flechas cravadas nos peitos
são como flores
são flores da morte
que dos peitos brotam

quinta-feira, 9 de junho de 2011

manhã

acordo,
esfrego os meus pequenos olhos
sentado na cama,
enquanto calço os chinelos,
vou à casa de banho e
olho-me no espelho,
desato a rir,
pareço um chinês,
olhos pequeninos,
bocejo e sinto a água
fresca na cara.

percorro o corredor
direito à cozinha,
na cozinha a minha mãe
prepara-me o pequeno-almoço,
reparo que toda ela
se vestiu de negro, e
apanhou o cabelo,
mãe não fazes isso
só quando alguém morre?
não respondeu, pensei,
o pai já não aparece em casa há um mês.

à tarde no parque

um casal troca juras de amor
um puto atira pedras junto ao lago

Um homem passa

leva as mãos nos bolsos
muito curvado
em passo acelerado
anda como se corresse
corre como se andasse
curvado como se a força do sol o curvasse
olhos colados no chão
perdidos em pensamentos silenciosos
corre a andar

pergunto-lhe
porque andas a correr?

terça-feira, 8 de março de 2011

hormonas danças

bacamarte
esperando a encantadora
de serpentes
que o fita com o olhar
já se escorrendo
quere-o deseja-o

toca-se

entre as pernas
como coração pulsante
segrega desejo

geme

'fode-me'
louco a agarra
a encosta á parede
ergue-a e a presenteia
por várias vezes
numa dança ritmada
e sincronizada

ali ficam
até que menos hormónicos
e sem fôlego
se deixam cair
liquidamente no chão

vermelho desamor

pincelas na mente
um quadro pintado a sangue
de teu coração esventrado
a paleta
a cor é única vermelho desamor

olhas atrás
sim sei que
careces de tudo isso
do feito e não feito
dito e não dito

pincelas um pouco mais
realça ali
não fodas o quadro
olha atrás um pouco mais
realça aí
não fodas também o quadro

domingo, 27 de fevereiro de 2011

monstrinhos

guardo monstrinhos
peludinhos, gordinhos e feinhos
dentro de caixinhas
no peito guardo monstrinhos
pequeninos monstrinhos
que fumam cigarrinhos

sensual inebriante

casal inebriado
pelo odor sensual
pelos dois emanado
embebido em embriaguez

desarrolhemos mais uma botella
em êxtase sexual
e o néctar conhece o solo
bebamos pois do chão
como gatos
nus e ronronantes

amam-se e consomem-se como animais
no chão agora também embriagado
pelos dois infectado
divinos seres sexuais

cães uivantes

sete cães
ali
deitados contando estrelas
sete reles cães uivantes
ali
deitados de barrigas inchadas
olhando o manto nocturno
de
barrigas gordas de sonhos
olham babados e inchados
de
barrigas cheias de nada

domingo, 6 de fevereiro de 2011

corredor

corredor que corre
apenas corre
sente o vento na cara
nos lábios um travo a natureza
emanado pela bondosa floresta
isso o faz sentir bem
poderia ali viver
a correr
tendo-a a ela
como única companhia
ela que o faz sentir pleno
que lhe alimenta o ser
bastando a presença dela
em seu redor

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

árvore

habitam no seu peito
medonhas criaturas que
lhe devoram as entranhas
são como máquinas
inquietas e estridentes

angustiado

crava as unhas no peito
abre-o com ardor
de lá uma pequena árvore sai
suas pequenas raízes
logo se apressam a agarrar
a terra macia
ele alimenta-a depois
ali sentado regando-a sempre
sempre que sente seus lábios secarem

tempo passa

depressa se torna uma árvore
uma árvore como já teve
frondosa e carregada de frutos
agora paciente resta-lhe esperar
esperar por Ela
que venha colher
os frutos renovados

domingo, 30 de janeiro de 2011

silenciosamente

jaz teu corpo na cama
silencioso porém vivo
levantas-te preguiçoso
caminhas a custo
custo tal que a sentes
iminente a cada passo moribundo
expulsas então teus fluidos bocejando
regressas
e deixas cair morto
teu corpo sobre a cama

sábado, 8 de janeiro de 2011

tenho fome

queixo apoiado nos braços cruzados
debruçado sobre a mesa de jantar
tenho fome...
já revistei o frigorífico:
leite azedo e queijo bolorento
tenho fome...
como mais uma bolacha
das que encontrei debaixo do sofá
continuo com fome...

o joão mia
e sobe para a mesa
tem fome...
toma joão uma bolacha
come-a tu diz ele
é esquisito o cabrão
mesmo com fome...

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

estás morto

que cena, estou gelado... estás morto? porquê, tu já estiveste morto?

a espera

porque paraste? como a árvore que pára ao deixar de sentir o sopro. esperas alguém? esperas o sopro...

domingo, 21 de novembro de 2010

sente

escrita sentida, mas sem sentido, para os sentidos

escrita para os sentidos, mas sentida, sem sentido

escrita sem sentido, mas sentida, para os sentidos

embriagado

embriagado, pelo momento, frente á lareira e no chão, como cão, suado do calor da chama, afastar-me? poderia...mas sinto o corpo petrificado.

já vinhas

já vinhas...sim tu, espero-te na espera de esperar que venhas.